Bitcoin - O inicio da transformação da nova economia digital
O Bitcoin é um software revolucionário projetado para permitir que duas partes efetuem transações digitais na internet, sem a necessidade da confiança de um intermediário (peer to peer). Esta transação ocorre de forma "anônima" (por chave criptografada) e funciona 24 horas/7 dias por semana devido a rede ser descentralizada. Ou seja, "qualquer" ator interessado pode rodar o software e contribuir para validar as transações na rede (que devem ser obrigatoriamente confirmadas também por todos os outros participantes) criando um cenário perfeito para que a rede nunca fique offline. A partir desta criação de 2008 do Satoshi Nakamoto, pseudônimo utilizado para representar o(s) desenvolvedor(es) do projeto, algumas inovações merecem ser muito destacadas.
1 - autocustódia digital.
Esta é a primeira forma de dinheiro digital bem sucedida, porque além de criar um sistema ponta a ponta para transferência de valor, pelo fato da rede funcionar através de prova de trabalho criptográfica, as moedas BTC ficam vinculadas a uma chave de assinatura que o detentor deste saldo garante a posse e o uso legítimo na rede, permitindo assim, pela primeira vez na história que se pudesse ter um ativo digital sem uma instituição de pagamentos regulando a posse e transferência. Esta inovação é especialmente útil para dar total autonomia ao usuário e protege-lo de confiscos e censuras. Além de claro, forçar que as instituições tradicionais de transferência de valor se adaptem gradativamente ao novo ecossistema financeiro que vem sendo desenvolvido por consequência da inovação.
2 - escassez digital.
Por design o sistema do Bitcoin emitiu apenas 21 milhões de moedas. Para usar a rede você precisa transacionar com a moeda do sistema, o que significa uma regra de fácil entendimento: Se a oferta da moeda é limitada, em tese a demanda pelo uso do Bitcoin conforme aumenta pode criar uma pressão real no preço do token. Isto explica porque há tamanha especulação financeira em um ativo como este. E o que justifica este conceito de escassez digital é a tecnologia blockchain. Ao qual consideramos ser a inovação revolucionária que o Bitcoin trouxe, por ter conseguido harmonizar conceitos como Árvore de Merkle e Proof of Work, criando um consenso de rede poderoso, verdadeiramente transformador na forma como reconhecemos valor e confiança na era digital.
3 - confiança digital.
A blockchain que é uma espécie de livro razão descentralizado para registro de informações criptografadas em bloco, gera uma "corrente matemática" que torna praticamente impossível (por força da tecnologia) a reversão daquilo que uma vez conste no sistema. A blockchain elevou o patamar da confiança na era digital, ao garantir um novo modelo robusto de segurança e transparência da informação. Segurança, porque a informação registrada é confirmada sempre pela rede de computadores que compõe o sistema, continuadamente validada a cada bloco. Transparente, porque a hash da transação está acessível cronologicamente para visualização de qualquer interessado, disponível pra auditoria em tempo real. Portanto, não há forma fácil de criar cópia ou fraudar a informação, mudando completamente os rumos de como um arquivo digital pode ser tratado.
Ethereum - A programação da liquidez na blockchain
Após o lançamento do Bitcoin, começamos a ver emergir uma série de novas redes e projetos apresentando soluções para as limitações técnicas do Bitcoin, quase todas elas sendo apenas uma alternativa especulativa, com mais promessas do que resultados. Porém, uma delas trouxe uma inovação especial que a posicionou não como uma concorrente do Bitcoin, mas sim como uma complementação essencial. Essa é a Ethereum. Com a introdução inovadora do conceito de smartcontracts. Bitcoin resolveu o problema da confiança digital e introduziu uma forma de dinheiro na internet. Ethereum resolveu o problema de como estabelecer acordos autoexecutáveis através de contratos inteligentes, abrindo, definitivamente, os olhos dos grandes players do mercado financeiro para o futuro que chegou. A partir da Ethereum, vários produtos e ferramentas financeiras vem surgindo a cada ano. DEFI, RWA, NFT, entre tantos outros. Ethereum se posiciona forte como a camada de liquidez global na blockchain, pois criou as bases para que QUALQUER relação financeira tradicional pudesse ser trazida para a segurança da blockchain.
Bitcoin e Ethereum - Um olhar para o futuro.
Concluiremos este artigo, fazendo algumas reflexões alongadas bem críticas sobre como a Setalink enxerga o papel destas redes no futuro. O Bitcoin é uma tecnologia fascinante e ninguém tirará da história o seu feito, mas como toda tecnologia que inova, outras necessidades surgem a partir da inovação, e precisará se adaptar as demandas dos novos tempos ou arriscará terminar em total obsolescência. O Bitcoin é uma rede em software intencionalmente programada para ser lenta de mudar. Pois diante da descentralização da rede, há uma necessidade de muitos atores entrarem em consenso para rodar uma nova versão de software com as mudanças que forem propostas. Porém, diante de uma ameaça quântica (artigo escrito em 2026), a comunidade precisará escolher um novo algoritmo de criptografia pós-quântica, e isso está gerando um debate técnico EXISTENCIAL de qual caminho seguir, seja com a escolha do novo algoritmo, seja nas consequências desta escolha, como o tamanho dos blocos, possíveis falhas e bugs em função da mudança que vão expor os utilizadores a novos riscos desconhecidos (riscos que sempre vão perseguir eternamente qualquer tecnologia). Além do debate do que fazer, existe uma quantidade enorme de carteiras com muito saldo que estão "abandonadas" na rede, ao qual seus donos talvez não irão atualizar suas chaves para o novo padrão. Esta constatação gera um grande dilema na comunidade entre deixar as chaves antigas vulneráveis a um ataque quântico (que poderia roubar os bitcoins) ou se a rede deverá congelar as moedas de quem não atualizar a tempo para proteger as carteiras, também havendo consequências críticas no campo ético e econômico. E é dentro destas circunstâncias que a Setalink não compra a tese badalada do Bitcoin como ouro digital. Porque para ser como o Ouro não basta apenas escassez, é importante a imutabilidade absoluta (" a essência original é a Lei"). A partir do momento que alguma instituição poderosa puder usar uma ferramenta quântica para apreender milhões de bitcoins em carteiras antigas, a tese de que o Bitcoin é uma reserva de valor esvaziaria automaticamente. E a bem da verdade, esta tese de ouro digital NUNCA FOI SUGERIDA pelo criador do sistema. Ele apenas propôs o Bitcoin como um meio de pagamento ponta a ponta, sem permissão, regulado por uma rede descentralizada.
O Ouro não tem riscos de governança. O Bitcoin tem. O Ouro é fisicamente imutável, não enferruja, não brilha menos se houver alguma discordância política, e não precisa de uma política de atualização de software para continuar sobrevivendo. Se a humanidade entrar em uma guerra civil global (é certo que neste caso a sobrevivência do Bitcoin seria o menor dos problemas), a internet colapsar, ou até mesmo ocorrer algum fenômeno natural extremo como uma tempestade solar catastrófica, o Ouro continuará tendo as mesmas propriedades físicas. O Ouro só continua a depender do interesse humano em sua essência. Já o Bitcoin depende das decisões do contrato social mediado por computadores, teoria dos jogos. Se a comunidade rachar, se os desenvolvedores errarem a mão em um código, ou se houver algum futuro hack, o ouro digital vira pó. Por que, então, as pessoas ainda insistem na ideia do Bitcoin como ouro digital? Insistem pois em tese ele resolve problemas que o ouro físico possui, como a portabilidade. Afinal, você não consegue cruzar uma fronteira em um momento de crise geopolítica com milhões em barras de ouro nas costas. Com o Bitcoin, você vai para onde quiser memorizando as palavras que dão acesso ao saldo na rede. Um outro motivo seria a verificabilidade. Uma barra de ouro pura exige testes químicos ou pesagem precisa. Com o Bitcoin, a auditoria é instantânea bastando verificar a blockchain. Mas a tese mais sedutora é principalmente econômica, a ideia de que a escassez do token vai gerar apreciação constante no preço, virando reserva de valor (comparado a moedas estatais que tendem a zero). Se o Bitcoin vier a alcançar este status de reserva de valor, a Setalink o visualiza como "reserva de valor transitória", ou seja, útil para manejo patrimonial em situações de curto ou médio prazo que envolvam restrições legais ou necessidade de simplificação de portfólio para transferências. Todavia, o fato é que o Bitcoin carrega um risco existencial humano que o Ouro simplesmente não possui. Definimos como reserva de valor transitória porque dificilmente você conseguiria manter a posse do ativo guardada por 10 anos sem preocupações de gestão. O Bitcoin precisará mudar para sobreviver à ameaça quântica ou a qualquer outra futura ameaça de obsolescência crítica. E no momento em que ele precise mudar, ele entra no terreno perigoso da governança, da política e do erro de execução.
Repetindo, a camada base do Bitcoin é lenta e imutável de propósito, para garantir a segurança máxima do protocolo, mas isso também compromete a "usabilidade" e a "eficiência" que o mercado busca, que não serão resolvidas com gambiarras (como a Lightning Network ou outros protocolos de segunda camada) pelo simples fato de que o código não permite. A limitação do sistema (para outros fins) é severa. Para dar de exemplo, poderíamos imaginar um vídeo em resolução 4K sendo tratado por uma internet discada. Entendemos que o Bitcoin ser "simples" e "maduro" é visto por muitos como sua maior virtude, existe até um conceito chamado Efeito Lindy, que diz que a expectativa de vida futura de uma tecnologia ou ideia é proporcional à sua idade atual. Se o olharmos como uma camada neutra de valor macroeconômico, a sua rigidez e alto custo de energia são argumentos favoráveis para quem pensa na apreciação do token. Para uma reserva de valor global, a solidez previsível é preferível à inovação constante. O Bitcoin faz apenas uma coisa: ele transfere valor de A para B sem intermediários. Mas não há menção a "ouro digital", "reserva de valor institucional" ou "colateral para fundos de investimento" nos documentos de Satoshi. O Ouro é citado no whitepaper apenas como uma analogia pra justificar o mecanismo matemático da mineração. A verdade inconveniente é que a tese de "ouro digital" nasceu da percepção coletiva da frustração técnica da rede, quando ficou claro que a blockchain do Bitcoin em seu design lento e limitado não aguentaria o volume de transações globais, se tornando conveniente a narrativa de que "está tudo bem, Bitcoin não é para gastar, é pra "holdar", igual ao Ouro". Enfim, não estamos dizendo que o Bitcoin vai acabar amanhã ou ano que vem. Todas as principais redes de blockchain vão precisar mudar. Mas especialmente para uma rede que foi criada para se manter imutável, a ameaça quântica é ainda mais grave. Haverão grandes desafios pela frente. E a Setalink acompanhará de perto o resultado.
Independente do resultado destes futuros desafios, a ideia sistêmica de ter uma rede descentralizada onde você controla suas próprias chaves privadas e transaciona diretamente com outra pessoa funciona muito bem, todavia, a pretensão filosófica vem perdendo força. A realidade mostra a adoção de milhões de pessoas comprando Bitcoin ocorrendo cada vez mais através de aplicativos de bancos tradicionais ou fundos imobiliários. Ou seja, o usuário não adquire o Bitcoin de verdade, somente um título regulado financeiro lastreado no Bitcoin. E pra piorar, vemos um constante ataque de governos a ideia de autocustódia, sobre a justificativa de proteger a economia popular e dificultar práticas criminosas. Muitos governos já perceberam que proibir o Bitcoin é ineficaz, então a estratégia madura é o cerceamento regulatório: as pontes de saída para o dinheiro real (fiat) vindas de carteiras privadas estão se tornando tão burocráticas, vigiadas e taxadas que para o cidadão comum, manter dinheiro fora do sistema bancário regulado exigirá bastante esforço. A autocustódia possivelmente em algum momento virará um ato subversivo. E para a grande maioria dos cidadãos, se o governo decidir agir sobre os bens dessa pessoa, o banco seguirá a conformidade regulatória. Portanto, quanto mais o Bitcoin se integra e depende do sistema financeiro tradicional, sendo alvo sedutor do varejo apenas pela especulação de preço, mais ele se enterra em seus propósitos filosóficos originais.
O Bitcoin ganhou a batalha da validação legal, mas perdeu a guerra ideológica para a qual foi programado. Ele deixará de ser uma arma de libertação financeira para se tornar apenas uma linha de ativos no portfólio das mesmas instituições que ele deveria ser independente. Enquanto o Bitcoin se transforma em um produto institucional, outras redes pegaram o bastão do objetivo original de Satoshi. Para quem tem a mentalidade estritamente ideológica, anti-censura e de uso sem permissão, o Monero (XMR) é a rede que tem hoje conseguido ser o que o Bitcoin durante pouco tempo conseguiu. O Monero é privado por padrão. Ele usa tecnologias de criptografia que escondem o remetente, o destinatário e o valor da transação. É por isso que governos odeiam o Monero e criam aparatos para desincentivar o uso, porque ele é potencialmente incontrolável. Se a tese original do Bitcoin é ter um dinheiro eletrônico imune ao Estado, o Monero vem cumprindo hoje esse papel, enquanto o Bitcoin tem sido um grande livro de contabilidade aberto para auditoria. O que estamos vendo no mercado hoje, com grandes fundos institucionais dominando os ETFs de Bitcoin, e gradativamente custodiando a posse da moeda, é a antítese ideológica do que Satoshi projetou se materializando. Alguns entusiastas rebatem dizendo que o gasto de energia do Bitcoin (proof of work) é o que conecta a moeda digital à realidade física da termodinâmica, tornando a rede incontrolável. Para "dominar" o Bitcoin, você precisa dominar uma quantidade de energia real que nenhum governo ou entidade consegue centralizar facilmente. Entretanto, também este argumento é vencido ao olharmos pro futuro. Na medida que o custo de energia da mineração sobe, e a redução da recompensa cai pela metade a cada 4 anos (halving), a necessidade de investimento em grandes estruturas vai tirando mineradores desestruturados do jogo, o que tende a aumentar a centralização da rede. E se a mineração ficar politicamente insustentável devido a pressões climáticas globais, ou se a oferta circulante da criptomoeda seguir se concentrando nas mãos de grandes instituições (como está ocorrendo aceleradamente), Bitcoin realmente virará apenas um produto financeiro centralizado, pois se a intenção original era criar um dinheiro livre do controle de governos e bancos, é o caminho inverso que está acontecendo.
A Setalink assim como qualquer outra empresa está sujeita a regulação. Convenhamos que o mercado financeiro global e a economia real não querem o fim do Estado. Eles querem eficiência, previsibilidade e conformidade. A intenção com este artigo não é criar um sentimento libertário, revolucionário. É somente analisar a história. Todo este contexto fundamentalista é importante para mostrar que devido a blockchain do Bitcoin ser pública, ela é totalmente rastreável. Haverá cada vez mais especialização na auditoria de toda a árvore de transações. Mover um BTC que passou por um endereço "suspeito" significa potencialmente a lidar com questões legais. O Bitcoin está sendo domesticado pelo sistema regulatório. Portanto, é nesta conclusão que queremos chegar pra concluir que o trunfo do Bitcoin é sua própria sentença de morte: a transparência absoluta. O Bitcoin foi criado para ser "rebelde", e podemos estar diante do script histórico de como o sistema financeiro tradicional (Wall Street e os bancos centrais) lida com as inovações que ameaçam o seu monopólio. Um sistema "anti frágil" como o Bitcoin não se vence proibindo, você o domina participando intensamente. Comprar, regulamentar, extrair o máximo de valor e transferir sempre que possível o risco sistêmico para o varejo. É o que chamamos de bolha estruturada. Para o sistema financeiro dominar o Bitcoin, ele precisa tirar as moedas das carteiras privadas das pessoas e colocá-las em fundos centralizados (como os ETFs). Quando a maior parte dos bitcoins do mundo estiver sob a custódia de gigantes institucionais e grandes bancos, o Bitcoin perde enfim sua filosofia original, prevista por seu criador. O governo não precisa perseguir milhões de usuários descentralizados, ele só precisa regular as grandes instituições financeiras que passarem a dominar as chaves privadas dos investidores. E convenhamos, as instituições financeiras não compram Bitcoin porque acreditam na filosofia revolucionária de Satoshi Nakamoto. Elas compram porque ele é um ativo altamente volátil que gera rentabilidade na casa dos bilhões, permitindo lucro em produtos com taxas de administração, corretagem e oportunidades de arbitragem para os market makers. E ainda servindo de cabide para governos colocarem as amarras em um leão selvagem. As instituições reguladas podem inflar o preço do BTC através de narrativas sedutoras (como a tese do "ouro digital") atraindo a ganância do cidadão comum que não entendeu o motivo original do porque o Bitcoin foi criado. Enquanto o varejo compra o sintético do ativo acreditando que ficará rico, os grandes players institucionais se preparam para garantir que eles ganharão dinheiro tanto na alta quanto na baixa. E uma vez que a regulamentação global estiver 100% implementada e o Bitcoin estiver totalmente integrado ao sistema legal e de vigilância bancária, a domesticação estará concluída. Neste ponto o Bitcoin, diante da ameaça quântica ou de outra crise de governança intratável, perderia seu ultimo atrativo de ser um dinheiro digital, porque outras redes modernas e baratas assumirão a utilidade real do dinheiro. As baleias institucionais e os market makers liquidarão suas posições para quem? Para o varejo. Que continuará acreditando na narrativa do "holdar para sempre". O varejo segura a sacola, e quando o preço desabar 80% (muitos acreditarão que é apenas a história de ciclo de mercado se repetindo, mas na verdade é a base tecnológica falindo ou saturando como colateral para liquidação de imensas dívidas institucionais) ela potencialmente seria abandonada pelos grandes fluxos de capital. Os ETFs fecharão os resgates, os bancos limitarão os saques e o investidor comum descobrirá que o papel que ele comprou no banco não vale mais nada. O dinheiro terá evaporado dos bolsos da varejo e migrado para o balanço patrimonial dos bancos que operaram as taxas durante a festa. O padrão de grandes bolhas é sempre o mesmo. O varejo entra pelo marketing do lucro rápido, o sistema financeiro assume o controle do cassino, extrai o lucro e deixa a conta do colapso para o varejo. Não parece um cenário digno de filme? Por enquanto seria um filme de ficção mas nunca se sabe. Essa domesticação do Bitcoin, pode criar futuramente a maior armadilha de liquidez da história. E a bolha final viria tanto pelo abandono de fundamentos da rede, que em algum momento não atenderá mais as necessidade contemporâneas, quanto também inflada pela ganância dos usuários, cada vez mais manipulados pela habilidade profissional dos grandes players institucionais.
A Setalink valoriza mais o Bitcoin a luz da ideia de padrão de utilidade tecnológica do que como tese monetária de ouro digital. Reconhecemos que ainda hoje (2026) é de longe a rede mais segura, e esse status não mudará facilmente. Talvez o cenário apocalíptico nunca ocorra e o Bitcoin continue sendo uma rede prime de segurança durante muitos e muitos anos. Mas fato é que o Bitcoin será cada vez mais um produto financeiro domesticado e parece claro que a tese filosófica do whitepaper de Satoshi está ruindo. É natural também o entendimento que a rede Bitcoin por não ter contratos inteligentes complexos rodando nativamente na camada base (como na Ethereum), a sua "superfície de ataque" é diminuta. Redes mais modernas e rápidas são infinitamente mais complexas em termos de código, o que significa que elas têm maior risco de brechas para bugs e exploits. Mas o que aproximará outras redes (como a Ethereum) da confiança que o Bitcoin hoje prestigia é o teste do tempo, justamente o Efeito Lindy. E antes que fanáticos (já enraivecidos com a mera hipótese de cenários que levantamos) estabeleçam a ideia que o Bitcoin é o "Protocolo Base" (tal como o TCP/IP), lembrem-se que o mundo não está construindo trilhões de dólares de infraestrutura em cima dele. É um erro acreditar nisso. Bitcoin tem sido sim um ótimo ponto de partida para acostumar as pessoas com a ideia de ativos digitais e estimular o debate regulatório. Mas neste aspecto, o mercado financeiro olha muito mais para a criação de iniciativas privadas de blockchain, como a GCUL do Google por exemplo (devido a própria natureza dos negócios que exigem privacidade e conformidade), e olham para a Ethereum como uma camada pública de liquidação global (pois é a rede genesis do "money legos" para ativos financeiros). E quando uma tecnologia se torna o padrão global de uma indústria, o custo de mudar tudo para um padrão "melhor" se torna proibitivo. Este é justamente o ponto que favorece a Ethereum com a inovação dos smartcontracts, por causa do efeito de rede. Se a Ethereum foi pensada na segurança do Bitcoin com relação ao blockchain, as finanças e negócios em blockchain aonde a liquidez realmente vai se movimentar, tem sido pensadas em torno dos smartcontracts da Ethereum.
Contudo, o mercado é extremamente conservador, a Ethereum precisará ainda de sobreviver a crises globais, a questionamentos tecnológicos e pressões regulatórias por vários anos antes do mercado confiar nela uma boa fatia da liquidez global. Mas por não ter a perspectiva de ser o ouro digital, e carregar muito menos o peso da possibilidade de ser substituída por redes melhores, ela se apresenta até o momento como uma linguagem de programação prioritária para a tokenização da economia e aplicações (windows open source das finanças digitais), não como a solução única, mas como a camada genesis rentável e neutra, a mais testada e confiável, sendo convenientemente soberana. Não atoa é a mais escolhida para o lançamento de stablecoins e alfa de interoperabilidade no avanço da infraestrutura em outras redes. É aqui que se encaixam os protocolos de nova geração, são redes que querem atrair liquidez da Ethereum, mas que ao fazer isso também a alimentam. Pois além de abrirem pontes de liquidez (ao buscarem interoperabilidade EVM, como o Hashgraph e outras arquiteturas eficientes), a Ethereum pode incorporar soluções bem sucedidas em sua camada base que funcionarem "nos testes de aprendizado" dos protocolos de nova geração, sem passar pelos mesmos riscos de arquitetura que as novas redes estão sujeitas. São redes que oferecem conformidade regulatória, facilitando integrações com blockchains privadas, combinadas com um alto índice de escalabilidade e velocidade que o Bitcoin jamais conseguirá entregar. Focadas em construir e integrar ecossistemas, processando ativos de diversas naturezas (derivativos, ações, certificados, micro pagamentos etc). Chegará ao ponto que algumas soluções serão "invisíveis", base de aplicações que o usuário não saberá que está utilizando, e o varejo inevitavelmente adotará alguma delas para o seu uso diário, pela rapidez e baixo custo de transação, tratando o Bitcoin apenas como um produto financeiro especulativo. Aliás já a alguns anos é apenas a suposta valorização no Bitcoin que tem trazido o cidadão comum para a rede. Uma vez que isso esteja finalmente doutrinado (com a concentração do token nas mãos dos institucionais) , a tese ORIGINAL do Bitcoin fracassa. É o que defendemos. Para o mercado, quando o assunto é proteger a riqueza de uma vida inteira (ou o PIB de um país), todo cuidado é pouco. Por mais que hoje o Bitcoin apresente um alto índice de segurança e capitalização de rede, e ele possa, potencialmente, atingir durante algum tempo o status de reserva de valor com a diminuição da sua volatilidade, se houver motivos incontornáveis para a tese de segurança fraquejar, o smart money abandonaria o Bitcoin e migraria para uma alternativa. E se isso ocorrer, a história registrará o Bitcoin como a "Kodak" do dinheiro digital, engolida pela própria evolução da tecnologia. A Setalink interpreta, com uma dose de sarcasmo, a tese do ouro digital como LITERALMENTE o ouro físico em sua versão digital, disponibilizadas para liquidação em várias redes. Consideramos impertinente tratar Bitcoin como Ouro porque não é possível replicar suas especificidades físicas ou históricas. É uma metáfora sedutora, porém exagerada, e anestesia o olhar crítico à tecnologia. E enquanto reserva de valor na nossa opinião veremos uma imensidão de concorrentes interessantes, a partir da posse de ativos do mundo real tokenizadas multichain, como imóveis por exemplo.
Para os fanáticos em Bitcoin fica o recado, diante de todas as críticas que fizemos, o Bitcoin já é bem sucedido por ser uma camada segura de liquidação incontestável, e esta é a grande utilidade que mantêm o potencial da rede em ser uma boa commodity digital durante muitos anos. Mas a expectativa em torno de que ele assuma o status de infraestrutura monetária atemporal, na nossa opinião seria esperar demais que ele consiga escapar para sempre da dinamicidade do ciclo de obsolescência de tecnologias, não porque sua "imutabilidade" seja algo ruim, mas devido ao risco de governança da rede que ao mesmo tempo que lhe dá estabilidade, em cenários extremos pode o expor a vulnerabilidades nas tomadas de decisão. Não podemos presumir que estas decisões serão neutras e acertadas. Por outro lado, a cada crise que o Bitcoin supere (como a próxima ameaça quântica) o seu status de anti frágil ganha força. Pode ser que a nossa tese apocalíptica nunca se materialize, mas nos parece claro que tecnologias melhores e mais eficientes vão inevitavelmente assumir o controle do tráfego financeiro global que nem hoje o Bitcoin conseguiu ou conseguirá chegar perto de dominar. Não só porque ainda é cedo, mas também pelo próprio limite da tecnologia que impede por sua essência "lenta" e restritiva frente as outras soluções já existentes e que virão a surgir para lidar com uma infinidade de transações sofisticadas. Portanto, temos dificuldade de enxergar a rede do Bitcoin no longo prazo como sendo a mais utilizada, o que não significa que ela não possa continuar mantendo um status respeitável, como ser a camada base para transações entre países por exemplo. O pioneiro que abriu as portas para a verdadeira transparência digital nunca será esquecido. O Bitcoin, no fim das contas, para alguns será considerado um grito por liberdade, sendo uma tentativa de resistência a censura de governos e as imprudências de bancos centrais. Para outros um "cavalo de Troia", porque ao mesmo tempo que instigou uma rebeldia às instituições, acabou sendo engolida por ela e deixou de legado uma inovação digital de registro distribuído que dará poder de controle social para governos como nunca se viu na história (principalmente quando pensamos no uso de blockchain associado a inteligência artificial). O Bitcoin pode ainda voar muito alto na jornada de recordes de novas altas históricas, ou pode perfeitamente terminar seus dias como um token nostálgico pela qual sua blockchain seria considerada uma enciclopédia histórica. O futuro dirá.
